“Sem a adolescência, os seres humanos não passariam de uns bobos incoerentes dotados de um cérebro enorme”
O veterinário inglês David Bainbridge é um especialista no funcionamento do organismo de várias espécies, inclusive da humana. Com três filhos entre 6 e 11 anos, no período da pré-adolescência, ele resolveu usar seu conhecimento para tentar lidar com as mudanças de temperamento que acometem os jovens. Constatou o que muitos pais já sabem: não há método que amenize a rebeldia juvenil. Mas descobriu que há um bom motivo para aturar a fase de contestação juvenil. Em seu livro Teenagers, a natural history (Adolescentes, uma história natural, sem edição no Brasil), ele afirma que as mudanças no cérebro adolescente – que geram o comportamento difícil – proporcionaram aos humanos o desenvolvimento do intelecto sofisticado. “Os adolescentes foram fundamentais para o sucesso da nossa espécie”, diz.
ÉPOCA – Por que o senhor diz que o sucesso da espécie humana se deve aos adolescentes?
David Bainbridge – Muitas das habilidades exclusivas aos seres humanos são desenvolvidas durante o período da adolescência. E for
am essas capacidades que ajudaram nossa espécie a sobreviver ao longo da evolução. Com a adolescência, ganhamos um tempo extra, além da infância, para organizar o cérebro: dos 11 aos 20 anos. Esse tempo a mais de reordenação cerebral permitiu que a espécie humana desenvolvesse uma capacidade intelectual incrível. Sem a adolescência, os seres humanos não passariam de uns bobos incoerentes dotados de um cérebro enorme.
ÉPOCA – Que habilidades são essas?
Bainbridge – É só olhar uma criança aos 10 anos e uma pessoa aos 20. No final da adolescência, conseguimos articular pensamentos e levantar hipóteses a partir de abstrações, algo que é tremendamente difícil para uma criança de 10 anos, acostumada a pensar em termos mais concretos. Com 20 anos, somos capazes de estabelecer objetivos de longo prazo e esperar que eles aconteçam. Para uma criança, o tempo não passa. Elas precisam obter recompensas imediatamente. Essas habilidades que vêm com a adolescência – abstração, planejamento, além de uma boa dose de autonomia – são importantes para garantir nossa sobrevivência na vida adulta.
ÉPOCA – Que modificações ocorrem no cérebro durante a adolescência para desenvolvermos essas habilidades?
Bainbridge – O cérebro atinge o tamanho que terá na vida adulta aos 12 anos nas meninas e aos 14 nos garotos. Desde antes do nascimento até essa idade, nossos neurônios construíram ligações com outros, estabeleceram novos caminhos para as informações circularem dentro do cérebro. Na adolescência, esse grande emaranhado de massa cinzenta precisa ser reorganizado. Muitas dessas conexões são desligadas. Outras são ativadas.
ÉPOCA – Por quê?
Bainbridge – Pode até parecer um desperdício passar anos formando ligações para depois cortá-las. Mas essa é uma boa estratégia porque dá flexibilidade para nosso cérebro. Ele é plástico o suficiente para ser remodelado com novas experiências, como aprender a se relacionar adequadamente com as pessoas – o que basicamente aprendemos na adolescência. A plasticidade do cérebro adolescente permite que ele se reorganize com essas experiências e mantenha essas conexões que serão necessárias na vida adulta.
ÉPOCA – Quais áreas do cérebro são mais afetadas com essas transformações?
Bainbridge – São as regiões envolvidas em interpretações complexas e sutis, como as que usaríamos para escrever um poema sobre nossas emoções. Elas ficam no córtex parietal, localizado na porção superior do cérebro, na parte de trás da cabeça. Outra região bastante afetada é o córtex pré-frontal, localizada bem na frente de nossa cabeça. Ela está relacionada a nossas habilidades analíticas. As mudanças também atingem o corpo dos neurônios, por onde os impulsos nervosos circulam. A cobertura de gordura que os envolve se torna mais espessa e faz com que eles transmitam as informações ainda mais rápido.
ÉPOCA – Essas mudanças no cérebro explicam algumas características comportamentais típicas dos adolescentes?
Bainbridge – Não há outra razão para explicar esses comportamentos senão as modificações no cérebro.Tantas alterações no córtex pré-frontal afetam a capacidade dos adolescentes de prever consequências. Por isso, eles costumam ser impulsivos. Mudanças no nível de dopamina, uma substância que transporta as informações entre os neurônios, também podem explicar as alterações na personalidade. Ela inibe o funcionamento de algumas regiões do cérebro que controlam o prazer. Isso explica por que os adolescentes procuram experiências frequentemente arriscadas. Eles precisam compensar a sensação de tédio causada pela supressão das atividades dessas áreas. Essa também é a raiz do comportamento de contestação e rebeldia.
ÉPOCA – Existem evidências científicas que atribuem o sucesso dos humanos ao aparecimento dos adolescentes?
Bainbridge – As outras espécies de animais não desenvolveram habilidades tão complexas quanto as humanas porque não têm adolescência. Elas podem até ter uma fase juvenil, mas não é esse período inacreditavelmente longo que os humanos têm. Passamos quase duas décadas nos desenvolvendo: são dez anos da infância e mais dez da adolescência. Os outros animais passam rapidamente de um padrão de crescimento infantil para a vida adulta. Nem animais muito inteligentes, como chimpanzés, elefantes e golfinhos, demoram 20 anos para se desenvolver. Em dez anos eles se tornam adultos, o que já é muito tempo se comparado a outras espécies. Além disso, há fósseis de ancestrais humanos que sustentam essa tese.
ÉPOCA – O que eles indicam?
Bainbridge – Os fósseis mostram que os adolescentes, hominídeos com mais de 12 anos e corpo ainda imaturo, apareceram um pouco antes de nosso cérebro adquirir o tamanho que tem hoje.Os paleontólogos encontraram arcadas dentárias e ossos compatíveis com os de um adolescente de 12 anos.
ÉPOCA – Como podemos usar esse conhecimento sobre a adolescência?
Bainbridge – Podemos melhorar o desempenho escolar dos adolescentes se entendermos que eles são preguiçosos não porque querem, mas em razão das alterações fisiológicas pelas quais estão passando. Nos Estados Unidos e na Europa, as aulas em algumas escolas começam mais tarde porque a direção leva em consideração que o relógico biológico dos adolescentes está desajustado. Nos adultos e nas crianças, ele é perfeitamente programado para 24 horas. Nos adolescentes, parece que está sempre funcionando atrasado, com 25 ou 26 horas. É por isso que eles querem ficar acordados até mais tarde e não conseguem acordar cedo. Também podemos entender que não é possível mudar a disposição dos adolescentes para correr riscos. O que podemos e precisamos fazer é alertá-los para as atitudes muito perigosas, como fazer sexo sem proteção.
ÉPOCA – Resta aos pais se conformar com a rebeldia do adolescente que eles têm em casa?
Bainbridge – Temos de lembrar que os adolescentes existem para tornar nossa espécie bem-sucedida. Não para fazer a vida dos adultos mais fácil.
Texto retirado desse site
Marcela Buscato – Revista ÉPOCA
One Response to “Sem a adolescência, os seres humanos não passariam de uns bobos incoerentes dotados de um cérebro enorme”
Leave a Reply Cancel reply
Serviços
Posts Desencarnados
Escolha o Assunto
AEE aliança aliança espírita evangélica carnaval charges charges espíritas Chico Chico Xavier cinema DalheDJ dalhemongo desenhos deus doutrina egm egm11 Encontro encontro geral encontro geral de mocidades encontros espiritirinhas espiritismo espírita filme filme espírita globo Jesus jovem jovens juventude KARDEC mediunidade mocidade mocidade espírita música nosso lar Obras Básicas O TREVO rede globo reencarnação religião sagrado Tirinhas TV vídeoVisitas
- 294.469 visits
- 3.871 hits per visit
- Last 24h: 251 visits & 1162 hits
- One visit each 6'18''
- One hit each 1'10''
- Your IP: 38.107.179.240
- Your browser: Bot
- Your OS: Unknown
Área Restrita





TRABALHO FEIRA!!!