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07 DE OUTUBRO NOS CINEMAS

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      No mês de dezembro, além de promover as concorridas e tumultuadas distribuições de Natal, Chico Xavier passou a visitar a Colônia Santa Marta, em Goiânia, especializada no tratamento de hansenianos. Ele era recebido com flores e com bebês para abençoar e saía com os bolsos repletos de pedidos de preces. Numa de suas visitas, uma das mães se aproximou da cama onde o filho dormia e agonizava, e chamou:
      - Acorda, é Chico Xavier.
      O rapaz, já em fase terminal, abriu os olhos com dificuldade e sorriu. A mulher, eufórica, comemorou:
      - Não disse que um dia nos encontraríamos com ele?
      Juntou as mãos como quem agradece a Deus e disse entre um soluço e outro:
      - Louvado seja porque somos leprosos, meu filho.
      Chico, também aos prantos, se debruçou sobre a cama, beijou as duas faces do jovem e seguiu adiante sem dizer uma palavra.

      Numa de suas visitas à Colônia, ele interrompeu a caminhada diante do portão de entrada e começou a chorar. Preocupada, a anfitriã perguntou qual era o problema. E ouviu a resposta:
      - Está tudo bem. É que o patrono da Colônia veio nos dar boas-vindas. Ele está dizendo que hoje abraçará e beijará todos os companheiros internados nesta casa.

      O patrono espiritual da Colônia era São Francisco de Assis. Chico entrou com sua comitiva e, além de cumprimentar cada um dos leprosos, distribuiu presentes: dinheiro para os adultos e brinquedos para as crianças. Com o tempo, Chico ganhou admiradores devotados na Colônia. Anos mais tarde, quando já não conseguia andar sem ajuda, ele se sentou em uma cadeira para trocar beijos e abraços com os doentes. De repente, uma senhora bem-vestida, em visita a um parente internado, aproximou-se de Chico e, sem dizer uma palavra, se ajoelhou diante dele e beijou seus pés. Chico chorou. Se estivesse saudável, teria impedido aquele gesto. Ele não era santo, a idolatria o incomodava.

      Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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        As suspeitas davam lugar a surpresa diante de cartas vindas do além e escritas, ainda em velocidade, por um Chico com mãos trêmulas. Numa delas, no mínimo pitoresca, o filho morto se referia à própria mãe como “minha Cica”. Ninguém entendeu o apelido. Nem o pai dele. A mãe demorou um pouco a decifrar a mensagem e, só com algum custo, se lembrou da mania irritante do filho de tratá-la como “minha elefantinha”.

        Numa de suas últimas conversas, ela pediu para ser poupada do apelido. Depois de morto, ele atendeu ao pedido e encontrou um substituto para o nome: Cica, a marca do elefantinho.

        Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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          Para combater a doença, Chico Xavier seguia a receita de Emmanuel: caridade. Em 1978, fiel à máxima “aliviai e sereis aliviado”, ele foi buscar forças na Penitenciária de São Paulo. A diretoria do presídio pediu aos presos interessados em ouvir a prece do espírita que se inscrevessem. Resultado: 542 detentos se apresentaram.

          Na época, muitos deles liam o livro 165 de Chico, Falou e Disse. Durante a palestra, um dos presidiários reclamou de ser tratado como um número. Chico tratou de buscar um consolo:
          - Meu filho, quem de nós não é tratado por número? É número de telefone, de carro, de casa, de CEO, de cic. Nós estamos com mais números que você. Só que agora estamos na cela ambulante e vocês estão na fixa.

          Após a palestra, Chico surpreendeu o diretor do presídio com uma notícia:
          - Quero sair daqui, mas, antes, desejo abraçar e beijar a todos.
          O diretor arregalou os olhos e quase se benzeu:
          - Deus me livre. Não, senhor. Você não vai abraçar nem beijar ninguém.
          Chico insistiu:
          - Não senhor, doutor. Eu não viria aqui fazer prece para depois me distanciar dos nossos irmãos. Não está certo.
          O diretor foi dramático:
          - Neste salão, outro dia, mataram um guarda de 23 anos. Afiaram a colher até ela virar punhal. Aqui há criminosos com sentenças de duzentos a trezentos anos. Eles podem te matar.
          - Pouco importa, vim aqui para o encontro e o senhor não me permite abraçar?

          O diretor se conformou com a idéia, mas tratou de organizar uma estratégia de guerra. Não podia correr o risco de virar notícia de jornal como um dos responsáveis pela morte de um dos líderes religiosos mais requisitados do país. Chico ouviu as instruções: teria de ficar atrás da mesa, cada encontro deveria ser rápido, dezoito baionetas estariam apontadas para o grupo. Para desespero do diretor, o espírita ficou na frente da mesa. Ele abraçava e beijava cada preso. Muitos contavam segredos ou diziam algumas palavras.

          Tudo ia muito bem até a chegada de um senhor de quase cinqüenta anos. Ele se aproximou e ficou estático diante do médium. Não estendeu a mão, não aproximou o rosto para o beijo, não abriu a boca.
          Chico perguntou:
          - O senhor permite que eu o abrace?
          - Perfeitamente.
          Após abraçar o corpo rígido, ele arriscou:
          - O senhor deixa que eu o beije?
          - Pode beijar.
          Chico o beijou de um lado, do outro, duas vezes cada face. Lágrimas escorreram dos olhos do preso. Antes de virar as costas, o detento agradeceu:
          - Muito obrigado.

          Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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            Numa dessas longas noites, Chico se levantou da cadeira, abriu os braços e anunciou:
            - Acaba de entrar na sala um lindo raio de sol.

            Era a cantora Vanusa. Na fila, atormentada pelo fim do casamento com Antônio Marcos, caiu em crise de choro incontrolável. Ficou muda, aos soluços, com o rosto coberto de lágrimas. Os auxiliares de Chico levaram a cantora a uma sala ao lado e esperaram que se acalmasse. Só mais tarde conversou com Chico. Queria resposta. Sua vida iria melhorar? Ela iria se reconciliar com o ex- marido? Não ouviu resposta alguma. Chico segurou suas mãos e se limitou a dizer:
            - Pense na grande responsabilidade da sua missão. Tudo o que você sabe, pensa, canta e fala num programa de televisão é muito importante, porque você está passando toda essa gama de emoções para essa gente que te ouve e vê.

            Foi o suficiente. Vanusa voltou para casa aliviada, com a mesma sensação que tomou conta do estilista Clodovil quando procurou Chico para um desabafo inesperado: sentia-se culpado por cobrar tão caro por seus vestidos. O espírita aliviou a consciência do estilista. Afinal de contas, ele gerava empregos e embelezava o mundo…

            Motivada pela idéia de investir em sua “missão”, Vanusa começou a mudar. Em vez de sofrer com suas aflições afetivas, passou a olhar mais à volta, e até a medir as palavras para passar “mensagens positivas” em declarações a jornais, revistas e TVs. Logo, estaria casada com um dos devotos mais dedicados de Chico Xavier, Augusto César Vanucci, então todo-poderoso diretor da linha de shows da TV Globo.

            Em pouco tempo, viveria uma experiência estranha. Numa noite, ela se levantou da cama, foi até o piano na sala, compôs uma música em minutos, gravou a melodia, voltou para o quarto e tirou da gaveta da mesa-decabeceira um livro de orações. Abriu na página da Prece de Cáritas, se sentou ao piano e conferiu: as frases tinham sido feitas para aqueles acordes. Na poltrona ao fundo, ela viu um vulto. Só podia ser o Vanucci. Mas não era. De repente, Vanusa ouviu a voz do marido do outro lado da sala. Olhou para trás e a sombra já tinha desaparecido. Nunca mais conseguiu tocar a música ao piano. Era complexa demais para ela. Vanusa passou a se dedicar a shows beneficentes e se sentir mais leve.

            Nunca se esqueceu de uma previsão feita por Chico Xavier sobre sua própria morte:
            - Vou morrer por causa do órgão do qual mais vivi: o coração.

            Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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