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Numa dessas longas noites, Chico se levantou da cadeira, abriu os braços e anunciou:
- Acaba de entrar na sala um lindo raio de sol.

Era a cantora Vanusa. Na fila, atormentada pelo fim do casamento com Antônio Marcos, caiu em crise de choro incontrolável. Ficou muda, aos soluços, com o rosto coberto de lágrimas. Os auxiliares de Chico levaram a cantora a uma sala ao lado e esperaram que se acalmasse. Só mais tarde conversou com Chico. Queria resposta. Sua vida iria melhorar? Ela iria se reconciliar com o ex- marido? Não ouviu resposta alguma. Chico segurou suas mãos e se limitou a dizer:
- Pense na grande responsabilidade da sua missão. Tudo o que você sabe, pensa, canta e fala num programa de televisão é muito importante, porque você está passando toda essa gama de emoções para essa gente que te ouve e vê.

Foi o suficiente. Vanusa voltou para casa aliviada, com a mesma sensação que tomou conta do estilista Clodovil quando procurou Chico para um desabafo inesperado: sentia-se culpado por cobrar tão caro por seus vestidos. O espírita aliviou a consciência do estilista. Afinal de contas, ele gerava empregos e embelezava o mundo…

Motivada pela idéia de investir em sua “missão”, Vanusa começou a mudar. Em vez de sofrer com suas aflições afetivas, passou a olhar mais à volta, e até a medir as palavras para passar “mensagens positivas” em declarações a jornais, revistas e TVs. Logo, estaria casada com um dos devotos mais dedicados de Chico Xavier, Augusto César Vanucci, então todo-poderoso diretor da linha de shows da TV Globo.

Em pouco tempo, viveria uma experiência estranha. Numa noite, ela se levantou da cama, foi até o piano na sala, compôs uma música em minutos, gravou a melodia, voltou para o quarto e tirou da gaveta da mesa-decabeceira um livro de orações. Abriu na página da Prece de Cáritas, se sentou ao piano e conferiu: as frases tinham sido feitas para aqueles acordes. Na poltrona ao fundo, ela viu um vulto. Só podia ser o Vanucci. Mas não era. De repente, Vanusa ouviu a voz do marido do outro lado da sala. Olhou para trás e a sombra já tinha desaparecido. Nunca mais conseguiu tocar a música ao piano. Era complexa demais para ela. Vanusa passou a se dedicar a shows beneficentes e se sentir mais leve.

Nunca se esqueceu de uma previsão feita por Chico Xavier sobre sua própria morte:
- Vou morrer por causa do órgão do qual mais vivi: o coração.

Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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    “… As consultas eram cada vez mais rápidas.

    – Chico, minha filha, de cinco anos, é portadora de mongolismo, mas eu acho que ela está sendo assediada por espírito.

    Chico descartava a hipótese “espiritual” e encaminhou mãe e filha à fila de passes. Elas viravam as costas, e ele confidenciava a um amigo:
    - Os espíritos estão me dizendo que essa menina, em encarnação anterior recente, suicidou-se atirando-se de um lugar muito alto.

    Outra mãe se aproximava e reclamava do filho, de cinco anos:
    - Ele é perturbado. Fala muito pouco e não memoriza mais que cinco minutos qualquer coisa que nós ensinamos. Quando os dois já estavam a caminho da sala de passe Chico confidenciava:
    - Na última encarnação, esse menino deu um tiro fatal na própria cabeça.

    Numa das noites, uma moça de 26 anos se aproximou e desabafou:
    - Minha personalidade muda demais. Às vezes, tenho impressão de ser outra pessoa. Estou ficando louca? Essa mudança é imposta espiritualmente. No caso, você está funcionando como um espelho. Busque se ajudar.

    De repente, Chico disparou a pergunta desconcertante:
    - Quem é Rosa?
    - É minha avó.

    E ouviu a notícia:
    - Ela está aqui e roga que lhe diga que tem procurado ajudá-la, mas você deve exercer certo controle sobre si própria. Busque orar muito. Não se preocupe. Ela está dizendo que vai ajudar.

    Em seguida, uma senhora de 45 anos, Therezinha, se aproximou e, sem dizer uma palavra, tirou da bolsa uma foto do filho Cássio e apertou as mãos de Chico. No mesmo instante, o médium fechou os olhos e se agarrou a um lápis. O papel ficou coberto de garranchos: “Querida mãezinha Therezinha e meu querido pai Florentino, abençoem-me. Marlise, nossa irmã, Deus nos proteja a todos” A carta, longa, pedia otimismo, falava do “vovô Florentino”, que, ao lado do remetente, mandava lembranças, e de duas avós convertidas em “mães do coração”, Maria Faustina e Maria Caruso…”

    Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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      Em setembro de 1976, Chico Xavier recebeu a visita do médium Luiz Antônio Gasparetto, então com 26 anos e recém-formado em Psicologia. O jovem deixava espectadores boquiabertos ao pintar, em minutos, com as mãos e os pés, sempre de olhos fechados, telas assinadas por mestres mortos como Toulouse-Lautrec, Renoir, Manet, Goya, Van Gogh, Matisse e Rembrandt. Na época, ele começava a ser considerado uma espécie de Chico Xavier da pintura. O encontro dos dois rendeu um espetáculo insólito.

      A música de Gounod, Donizetti, Beethoven tomou conta do ambiente e, em instantes, Gasparetto abriu a boca e se identificou, com sotaque francês.
      - Boa tarde. Sou Toulouse-Lautrec.

      Em segundos, seus dedos e as palmas das mãos já estavam lambuzadas de tinta. Em menos de cinqüenta segundos, um borrão no centro da tela se transformou num contorno de mulher. Chico, compenetrado, assumiu o papel de narrador dos bastidores invisíveis da sessão. Gasparetto usava as duas mãos para pintar uma tela intitulada Dois Esboços e Chico anunciava a presença de dois espíritos, um em cada braço do rapaz, empenhados em movimentos livres e não sincronizados. De repente, antes de aparecer na tela a assinatura da pintora, Chico anunciou a presença da pintora brasileira Tarsila do Amaral, já falecida.

      – Sinto um impacto ao ver o espírito dessa amiga de pé, manipulando o braço do médium. Tive o privilégio de assistir à evolução espiritual e artística de Tarsila quando, paralítica, presa a um leito, retratava seus personagens invariavelmente com a cabeça pequena.

      Na tela, em instantes, apareceu a figura de uma mulher deitada. Era um autoretrato póstumo. A pintura mais demorada chegou ao fim com uma assinatura ilustre: Van Gogh. Intitulada Flores, e repleta de cores berrantes, demorou cinco minutos para aparecer diante dos olhos marejados de Chico Xavier:
      - Sempre que vejo certas flores espirituais, o miosótis, por exemplo, sinto as vibrações que emitem e não posso conter as lágrimas.

      Para encerrar, Gasparetto decidiu usar os pés. Após espalhar tinta em seus dedos, ele colocou na tela a figura de uma mulher. Senhora era o título. Picasso, a assinatura. Em seguida, Gasparetto, ou melhor, Toulouse-Lautrec, decidiu conversar com o anfitrião:
      - Je vous en prie, apaguemos as luzes. Merci, e ‘est mieux. Aprendi o português só pro gasto, mas vamos indo. Você está me ouvindo, Chico?
      - Sim, perfeitamente.
      Após os cumprimentos, Toulouse deu o seu recado:
      - Embora haja muita pintura no mundo, nossa missão é alegrar mais a vida comprovando sobretudo que a morte não existe, que nós continuamos, que a vida continua. Combinamos as tintas e o quadro sai. Os incrédulos deveriam ver isso para saber que não morremos. Mas os estúpidos nem vendo crêem.

      Toulouse, sem papas na língua, fez até uma inconfidência sobre o guia de Chico. Emmanuel estava estudando com ele “teoria da pintura terapêutica de elevação”.  Chíco não tinha tempo para cursos de pintura. Após a conversa, Gasparetto voltou à tona. Parecia atordoado. Em poucos instantes, após massagear as pálpebras, ele se recuperou e arranjou forças para um desabafo.

      A conversa entrou em terreno escorregadio. O jovem estava cansado de tantos pintores invisíveis a seu redor. “Trabalho em telas a óleo, cinco, seis, sete e até mais horas por dia. Já pintei mais de 3 mil telas. Se deixo, os espíritos querem pintar até nas paredes. Disseram-me que eu não deveria trabalhar profissionalmente, só mediunicamente. Mas, com o tempo que eles me tomam, como é que vou me realizar na prática?”

      Gasparetto parecia buscar o aval de Chico para vender as telas do outro mundo. O doador de direitos autorais tinha a resposta pronta.

      – Você pode disciplinar o trabalho, dando a eles um tempo adequado.
      Gasparetto insistiu:
      - Digo a eles: “Vocês vivem em outra realidade. Por isto, não me compreendem”. Van Gogh, por exemplo, exige tintas importadas da Bélgica, da Holanda, e nós as importamos por 7.500 cruzeiros, uma bateria delas.
      Chico Xavier recorreu ao bom humor:
      - Seria bom que houvesse uma espécie de INPS dos médiuns.
      Depois falou sério:
      - Temos que achar um horário compatível.

      Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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        “… Em 1974, o alagoano Enéias Tavares Santos escreveu num livreto, em 208 estrofes, A Verdadeira História de Chico Xavier. Foi impecável:

        Hoje Chico é o maior
        No setor da mediunidade
        Vive lá em Uberaba
        Aquela grande cidade,
        Com uma obra grandiosa
        Praticando a caridade.
        Assim vai realizando
        A sua grande missão:
        Lá oitocentas crianças
        E adultos também vão
        Receber seus alimentos
        Nos fundos de um galpão.
        E se acaso uma pergunta
        Ao Chico é formulada,
        Concernente a suas obras,
        Responde com voz pausada:
        Eles são que fazem tudo
        Eu é que não faço nada…”

        Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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          Na Bienal do Livro daquele ano, a fila até Chico Xavier, no estande da Livraria Modelo, assumiu proporções descomunais. Quase 1.500 pessoas se esforçaram para chegar a ele. Distribuiu autógrafos das duas horas da tarde às sete da manhã seguinte. Descansou apenas meia hora.

          Os amigos sugeriram o uso de um carimbo com dedicatória padrão para apressar o movimento. Chico apenas assinaria o próprio nome. Com muito custo, persuadido pelo tamanho da fila, Chico aceitou. Foi pior. Culpado pelo excesso de impessoalidade, ele tratava de escrever, ao lado do carimbo, algumas frases para cada leitor.

          Em 1973, Chico foi atração em outra tarde-noite-madrugada de autógrafos. Nos dias 3 e 4 de agosto, no Clube Atlético Ipiranga, em São Paulo, ele deixou sua assinatura em nada menos que 2.243 livros após dezoito horas de maratona. A quantidade de cartas endereçadas a ele também alcançava números impressionantes. Chico chegou a receber, por dia, trezentas cartas. A média girava em torno de duzentas. Remetentes do Brasil inteiro, além da Espanha, Estados Unidos, Portugal, Argentina e Itália, pediam socorro a Chico Xavier, “o pai dos desesperados”, “o irmão dos que choram”, “o melhor sobre a Terra”…

          Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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            “… Daquele ano em diante, ele teria autorização para colocar no papel, com assiduidade, em sessões públicas, os textos ditados pelos mortos a suas famílias. Chico sairia da fase do varejo e iria para o estágio do atacado na chamada “literatura de consolação”. A cada semana, ele poria no papel a média de três mensagens particulares. A nova missão talvez substituísse em breve a dos livros, quando ele concluísse seu centésimo título. E era uma tarefa arriscada. A tensão dos parentes em busca de notícias de seus mortos chegava ao descontrole. Numa noite, em sessão pública, um espírita, amigo de Chico Xavier, duvidou de uma mensagem mandada por um familiar do outro mundo e cuspiu no rosto do médium. Chico se enxugou com um lenço, desabafou com amigos e, em casa, chorou. Emmanuel apareceu. Em vez de palavras de consolo, mais uma ordem:

            - Quando alguém cuspir em seu rosto, diga simplesmente que a chuva molhou sua face, se alguém pedir explicações. Não reclame…”

            Fonte: Trecho retirado do livro “As Vidas de Chico Xavier” escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior – 270 páginas, Editora PLANETA.

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