Um artigo do blog Textos para Reflexão (*)
O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno. Para ele, o mundo material estaria separado do campo da mente, que abrange os pensamentos, as emoções, o prazer e a dor. Se as [...]
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O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno. Para ele, o mundo material estaria separado do campo da mente, que abrange os pensamentos, as emoções, o prazer e a dor. Se as coisas da “mente” não têm tamanho, forma nem movimento, elas podem interagir com o mundo material, de forma que os pensamentos são capazes de causar ações, e os estímulos materiais, pensamentos. Segundo Descartes, essa interação ocorreria na glândula pineal, um pequeno núcleo cerebral que, à época, não se acreditava ter outra função.
Os monistas aparentemente representam o extremo oposto do dualismo cartesiano. Segundo o monismo, a consciência é parte do universo material, sendo idêntica à atividade cerebral relacionada a ela. Desenvolveu-se quando se aperfeiçoaram os mecanismos cognitivos, mas apenas como resultado destes, e não por qualquer outro propósito… Enquanto os dualistas creem que o cérebro nada mais é do que um rádio capaz de sintonizar a mente através da glândula pineal (ou através do cérebro como um todo), os monistas confiam em outra aposta: a de que é o rádio que gera as suas próprias ondas.
Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.
Se o homem do “quarto chinês” fosse tão somente um autômato cerebral capaz de levar e trazer mensagens, talvez o dualismo de Descartes faça todo o sentido afinal: o que quer que interprete as informações enviadas por nossos sentidos, e as envie de volta através de respostas complexas e emocionais, este sim seria o pianista da consciência. A consciência não geraria a si mesma, mas antes seria o som das teclas de quem dedilha o piano cerebral com maior ou menor desenvoltura… De fato, apesar da ciência moderna estar se intrometendo cada vez mais em nosso cérebro, o “gerador dos pensamentos” ainda não foi localizado em parte alguma. Vemos, sem dúvida, um baile frenético de eletricidade dentre bilhões de neurônios, e às vezes conseguimos associar um fluxo elétrico a uma resposta consciente, mas não quer dizer que saibamos de onde se originou efetivamente a resposta – principalmente quando ela tange questões morais e complexas.
Por isso esta questão é chamada de “o problema difícil da consciência”. Compreender as respostas reflexivas, ou comandos motores, etc., isso é até mesmo trivial quando comparado às respostas que envolvem uma interpretação da personalidade, uma resposta moral… Ainda assim, os críticos do dualismo cartesiano encontraram um caso estranho, ocorrido há muito tempo atrás, mas que possuí boa base de relatos de testemunhas, e com ele (e praticamente apenas ele) criaram uma teoria que postula que nossa moral, afinal, é apenas fruto do agitar de partículas em nosso lóbulo frontal.
Em “O erro de Descartes”, por exemplo, o cientistas português António Damásio vale-se especificamente deste caso para sustentar sua crítica ao dualismo… No ano de 1848, Phineas Cage, respeitado trabalhador de uma companhia ferroviária americana, teve a parte frontal do cérebro perfurada por uma barra de ferro, que usava para comprimir pó explosivo. Ele sobreviveu, com poucos danos à maioria de suas faculdades. Entretanto, houve drástica mudança de comportamento. De homem educado, responsável e respeitador, tornou-se perigoso, rude e socialmente irresponsável. Os mais próximos (testemunhas do caso) notaram que ele “não era mais o Cage”. A mudança devia-se, segundo os médicos, aos danos cerebrais. Reconstruções modernas (toda a gama de gráficos 3D que possam imaginar) demonstram que o ferimento afetou o lóbulo frontal – associado à sensibilidade moral.
Você deve estar imaginando que, ainda que o lóbulo frontal seja o responsável por nossas respostas morais, se a consciência for um “quarto chinês”, é bem possível que apenas o tradutor interno tenha sido prejudicado, e que isso nada teria a ver com a mente. Ou seja, o rádio estaria avariado, captando as ondas de forma errônea… Claro que essa discussão seria infindável. Não seria o “quarto chinês” argumento suficiente para encarar os defensores do monismo que se baseiam nesse acidente de 1848 como principal evidência. Seria preciso uma evidência tão forte quanto a favor do dualismo…
Em 1974, o bioquímico e psiquiatra canadense Ian Stevenson nos trouxe 20 evidências. Todas consideradas as evidências mais fortes dos milhares de casos estudados em diversos continentes nas décadas anteriores. Ian estudava crianças, mais precisamente as que afirmavam se lembrar de vidas passadas. Seu livro lançado naquele ano se chamava “20 casos sugestivos de reencarnação”.
Ora, não eram casos de evidência baixa: desde crianças que se lembravam de nomes de parentes e até do endereço de suas casas em vidas passadas, até crianças que relatavam terem tido mortes violentas na última encarnação, e traziam marcas de nascença exatamente onde os ferimentos letais os levaram a morte na última vida. Tudo registrado e, principalmente, estudado, de forma genuinamente científica… Se uma criança se lembra de uma vida passada, é necessário considerar que a informação registrada no cérebro de sua última vida foi transmitida, de alguma forma estranha, para um outro cérebro, um novo cérebro. Quando falamos nisso, estamos aparentemente dando um xeque-mate no monismo.
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Crédito da foto: Ryan Southen (um quarto chinês)
(*) O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Autoria do escritor Rafael Arrais
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Como vinha dizendo, uma coisa é crer na possibilidade de um Criador, outra muito distinta é compreendê-lo. Em todo caso, poderemos começar por uma lei da Natureza para [...]
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Seguindo o artigo anterior de onde parei…
Como vinha dizendo, uma coisa é crer na possibilidade de um Criador, outra muito distinta é compreendê-lo. Em todo caso, poderemos começar por uma lei da Natureza para a qual tanto céticos quanto espiritualistas não criam objeção a primeira vista: a lei da evolução. Evolução não significa que os organismos na Terra evoluem aleatóriamente com o passar do tempo, peixes que “decidem” ir viver na terra firme, simios que “decidem” ir viver em cima das árvores, ou girafas que “de alguma forma” esticam seu pescoço até que consigam comer as folhas das copas das árvores… Evolução significa que genes já existentes na espécie são privilegiados ou descartados, de acordo com sua função, até que certas características físicas (determinadas por esses genes) possibilitem uma melhora na capacidade da espécie sobreviver: peixes que tinham mais chances de sobreviver em terra firme se transformam lentamente (ao longo de várias espécies e milhões de anos) em criaturas desse tipo, simios que sobrevivem mais nos galhos das árvores evitando predadores no solo se transformam em mestres das árvores, girafas que vislumbram a possibilidade de encontrar pasto acima das árvores (onde não há muita concorrência com outros herbívoros) se transformam em criaturas pitorescas de pescoço alongado.
Se existe um plano para tudo isso, pela lógica devemos considerar que todas as criaturas vivas tem igual oportunidade na Terra, e que a Natureza, muito antes do homo sapiens chegar, proporcionou um vasto campo de experiências para essas espécies, onde simples bactérias evoluiram lentamente para todo tipo de animal sobre a Terra: uns bem sucedidos na sobrevivência, outros mal sucedidos ou extintos. A Natureza não faz um drama disso tudo: ela apenas propicia que espécies evoluam fisicamente, até estarem de acordo com a capacidade de abrigarem consiciência. Se considerarmos toda a história da Natureza na Terra, como um todo, teremos um maravilhoso exemplo de luta feroz pela sobrevivência, mas também do lento afloramento daquilo que nos é mais precioso: a capacidade de sermos conscientes de nós mesmos, e então passarmos a decidir nosso próprio futuro; Sermos morais ou imorais, sábios ou ignorantes, amorosos ou indiferentes… Agora, não dependemos apenas dos instintos animais, não precisamos mais ser governados por eles.
O Criador justo
Por mais que nos seja complexo definir conceitos como a Justiça, me parece que toda a história descrita acima pelo menos nos leva a uma idéia de “igual oportunidade”. Pois, se Deus criasse os espíritos no ato da concepção, e os “enviasse” as mães, como poderíamos ver Justiça quando uns nascem em terras áridas africanas, enquanto outros nascem em celeiros de riqueza europeus? Quando uns nascem numa era de tecnologia, anestesia e direitos civis, e outros nascem no passado tribal ou na época negra medieval? Quando uns nascem perfeitamente saudáveis, e outros nascem com doenças terminais ou disfunções desastrosas?
Na minha modesta opinião, um Criador só poderia ser realmente Justo se nos houvesse criado todos iguais, princípios de consciência ancestrais, que vieram evoluindo ao longo de diversas espécies, e diversas encarnações, até que a consciência enflorasse, e pudéssemos então guiar a nós mesmos, obedecendo a uma simples Lei de Causa e Efeito: tudo o que sua consciência inflige de mal, estará para sempre gravado nela própria. A única forma de evoluir moralmente, portanto, é nos expurgarmos desse mal, lapidando nossa alma lentamente, também ao longo de milhares de anos… Não existe punição nessa Lei, a “punição” está de acordo com a ignorância de cada espírito para com os segredos de sua própria consciência. Melhor aquele que matou pessoas na fogueira vir como enfermeiro de queimados, do que ele mesmo morrer queimado… No entanto, existem espíritos ignorantes que ainda seguem a lei do Talião, e mesmo aqueles que se recusam de antemão a qualquer prática de caridade. Mas, aqueles que tem algum conhecimento de si mesmos, e do Amor que nos liga a todos em uma teia divina, trata de trabalhar sempre para que sua consciência se veja livre de toda culpa, o quanto antes melhor!
Seguindo a mesma lógica, teremos uma elegante explicação para a evolução da cognição humana. Genes, como já disse, determinam apenas características físicas. Não se sabe que espécie de genes determinam características cognitivas (como em gênios precoces da música ou matemática), morais (como nos grandes sábios e seres amorosos) ou mesmo culturais (embora os cientistas tenham chegado a vaga teoria dos Memes). Ora, é que esses tais “genes da cognição” nada mais são do que a capacidade cogntiva desenvolvida pelos espíritos ao longo de inúmeras encarnações. São como “potencialidades da alma” que se encontram adormecidas, e podem ser afloradas ou não, dependendo da “sorte” de cada um na vida atual, ou seja: do que se propuseram a vir realizar de construtivo para si mesmos (e todo restante do planeta).
Dessa forma, o médico que precisa desenvolver sua moral, poderá ter uma potencialidade para a prática da medicina nunca desenvolvida, e quem sabe ser um mero faxineiro do hospital: para este, o aprendizado não vem mais de cirurgias, e seu jaleco de faxineiro o trará todo o tipo de provas que o fará “forçosamente” encarar os problemas morais em seu espírito; Poderá, no mínimo, aprender a respeitar a todos como iguais, cirugiões ou faxineiros. E nos livros de Kardec, exemplos como este não faltarão.
Porisso também é que a grande maioria se esquece de suas vidas passadas, é que elas não desempenham papel tão preponderante assim: não precisamos “saber” o quanto fomos imorais para praticar a moral. Não precisamos “fazer regressão” para despertar nossa capacidade de amar… Ela já está aqui, dentro de nós, e o espiritismo nos passa sempre essa mesma recomendação de trabalho na melhora gradual de nós mesmos. É tão somente isso que os espíritos de luz desejam para nós, pois que ninguém evolui sozinho, e a evolução não anda para traz. Certamente que antes, quando iámos ao Coliseu ver feras devorando homens, quando achávamos normal a escravidão e a idéia de que mulheres e animais não tinham alma, eramos decerto menos evoluídos moralmente… Daí a lógica de que procurar saber de nosso próprio passado espiritual quase nunca é passo necessário para que evoluamos aqui e agora, no único presente ao qual nos foi dado decidir o que fazer.
Nascer, morrer, renascer ainda, e progredir sempre. Tal é a lei (essa frase se encontra na lápide de Kardec, na França).
(*) O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Autoria do escritor Rafael Arrais
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Muitos podem estar se perguntando – "tudo bem, você acredita que espíritos podem ser consciência extra-corpo formados por partículas que não interagem com a luz, mas dado o [...]
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Muitos podem estar se perguntando – "tudo bem, você acredita que espíritos podem ser consciência extra-corpo formados por partículas que não interagem com a luz, mas dado o fato que essas nunca foram detectadas pela ciência, não é meio ilógico e arriscado crer em algo assim?" – Ao que respondo – "Arriscado sem dúvida, a vida é arriscada. Ilógico, não."
A lógica é o ramo da filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensar. Entendo particularmente a lógica como um conjunto de idéias ou conceitos que interagem uns com os outros, e que mesmo considerados em conjunto continuam fazendo sentido. Para mim é lógico que um pensamento nada mais seja que um estímulo elétrico navegando pelos neurônios do nosso cérebro, mas é ilógico afirmar que esse estímulo é "aleatório", ou convenientemente ignorarmos que todo estímulo se deve a uma "origem". Será que algum neurologista descobriu de onde exatamente no cérebro isso vem (não estou falando de estímulos de origem não consciente)?
A lógica de um Criador
Seguindo uma lógica parecida, podemos afirmar que todo efeito consciente tem uma causa na consciência, ainda que não saibamos ainda exatamente o que é a consciência, sabemos que ela é obviamente a origem de um efeito consciente, ou uma ação qualquer originada de um ser que tem a consciência de si mesmo, de sua individualidade (certos religiosos atribuem suas ações ao "determinismo divino" ou a "sedução do Diabo", mas isso é uma outra história). Se "voltamos no tempo", chegamos aos fatos: um homo sapiens é fruto da evolução das espécies na Terra, a vida na Terra orginou-se de um "evento fortuito" que provavelmente se deveu a combinação de elementos químicos (como o Carbono) presentes na atmosfera do planeta (muitos chegaram por asteróides, nem estavam aqui originalmente) que "de algum forma" deram origem a vida orgânica; Esses mesmos elementos (principalmente o Hidrogênio) são fruto do Big Bang – a "explosão" que deu origem ao Universo. A ciência não tem uma idéia suficientemente elaborada sobre o que ocorreu nos milesegundos iniciais do Big Bang, e muito menos sobre o que havia antes dele.
Mas o fato é que do Big Bang surgiu o Universo. E nesse mesmo Universo, partículas que formaram certos elementos químicos ainda relativamente "logo após" ao Big Bang, possibilitaram posteriormente não só o surgimento da vida na Terra, como o advento da consciência no homo sapiens (e provavelmente em outros animais). Daí retiramos a lógica de que todo efeito tem uma causa, e todo efeito consciente, ou que gera a consciência, tem uma causa consicente. Aqui está, pura e simples, toda a lógica que divide aqueles que acreditam em um Criador daqueles que acreditam na aparente aleatoriedade do Universo (tudo bem, existem as Leis da Natureza que estão muito distantes de serem aleatórias, mas o evento que criou tais leis foi aleatório para os ateus, visto que não o vêem como algo "orquestrado", nem com "algum propósito específico").
Bem, eu pessoalmente não sou ateu, mas nada tenho contra eles (inclusive além de ter diversos amigos ateus, aprecio sua capacidade lógica, embora não concorde com sua defesa da aleatoriedade do Universo).
Seguindo com meu encadeamento lógico: se existe um Criador, é porque ele é a soma de toda a sua criação, e algo a mais. Não estamos falando de um cientista que cria vida artificial manipulando organismos que já existiam, ou do poeta que escreve sobre uma Natureza que já estava aqui muito antes dele, estamos falando sobre um Criador que criou tudo – cada partícula, cada bit de informação de um RNA, cada código simples e elegante da Natureza, cada sutileza assombrosa da Gravidade e outras leis naturais. Então, esse Criador é pela lógica – Onisciente (sabe de cada canto e cada segundo do Universo, em todos os tempos, em todos os pensamentos), Onipotente (a soma de tudo o que é possível na Natureza, do buraco negro ao amor de mãe e filho) e Onipresente (uma condição óbvia da Onisciência, visto que não estamos nos atendo a um "corpo físico divino" [nem muito menos a um "velho barbudo nos céus"]).
Até aqui, não temos muitas discordâncias entre as religiões: que existe um Criador. O problema, porém, se mostra muito mais complexo quando nos perguntamos "mas como será exatamente esse Criador? Qual o seu plano para o Universo? Ele intercede em suas próprias leis naturais? Ele criou o mal? Ele nos julga, ou julgará?" – Não pretendo aqui me ater a essas perguntas, prefiro focar na pergunta principal: "Poderemos um dia compreendê-Lo?".
Ao contrário de muitos religiosos que já se julgam incapazes de antemão a compreender "qualquer detalhe que seja" de um Criador, ou daqueles outros que seguem fielmente um Livro Infalível e atribuem todas as contradições aos "mistérios de Deus", penso que é nosso dever, e possibilidade real, compreender todas as nuances do Criador. De fato, a união de ciência e religião, como falei anteriormente, trata extamente disso: do conhecimento, passo a passo, do Universo, do Cosmos, e análogamente, de seu Criador. Não tenho a ingenuidade de pensar que seremos capazes tão cedo de desvendar sequer metade de Seus mistérios, mas assim como na ciência os sonhos e ficções se tornam rapidamente realidade, ao vislumbrar a longa trilha que temos pela frente eu não vejo razão para acreditar que somos incapazes de "passar de certo ponto", mesmo que esse ponto esteja ainda a milhões de anos da compreensão de nossas consciências.
Ninguém chega a lugar algum sem dar os primeiros passos…
À seguir, continuarei com o caminho lógico apresentado, porém unindo a teoria da evolução das espécies com a idéia do princípio consciente que origina os espíritos.
(*) O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Autoria do escritor Rafael Arrais
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"Simpatia (substantivo): Sentimento bom em relação a outra pessoa ou conceito (idéia)."
Esse é um depoimento de crença pessoal. Por mais que minha crença seja baseada em evidências e experiências de vida, essas são todas puramente subjetivas. Não tenho intenção de provar nada que afirmo à seguir, e tampouco tenho certeza absoluta de nada disso, nem acredito que tenha encontrado a verdade "final" acerca de tais assuntos. Estejam avisados.
Sobre ciência e religião
Eu costumo dizer que minha religião é meu pensamento. Não quero, com isso, me esquivar de críticas ao que acredito. De fato, eu tenho constantemente buscado uma visão equilibrada (ao mesmo tempo cética e espiritualista) acerca da religião. Religião é meramente "religação a Deus ou ao Cosmos", efetivamente o significado da palavra (do latim "religare") nunca teve quase nada a ver com muito do que é atribuido a ela: xamãs, rituais, igrejas, templos, padres, pastores, médiuns, gurus espirituais, etc… Nesse sentido, tanto um monge budista que procura desvendar os mistérios da meditação transcendental quanto o neurologista que estuda estados enigmáticos da consciência estão, essencialmente, atrás dos mesmos mistérios da Natureza, independente dos motivos que levaram cada um a sua busca, independente de este estar correto e aquele equivocado: no fim, é tudo questão de opinião.
No entanto, certamente não podemos ignorar que o método científico tem se mostrado bastante efetivo para nos descrever a realidade da Natureza. Como disse Einstein, "toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos." – Eu não entendo a ciência (que signifca "conhecimento") como algo dissociado da religião. De fato, se unirmos os dois significados originais, teremos algo como "O Conhecimento do Cosmos" ou, para dar mais ênfase a idéia: "O Conhecimento de Deus". Acredito que, como dizia Sto. Agostinho, precisamos "crer para compreender, e compreender para crer". Por muito tempo, ciência e religião anadaram de mãos dadas, eram simplesmente a Sabedoria (e Filosofia, diga-se de passagem, significa "amor ao saber"). Depois das incursões em métodos experimentais na ilha de Samos, na Grécia antiga, é que se começou a separá-las: alguns sábios afirmavam que a experimentação na Natureza era o caminho essencial para se conhecer o funcionamento da mesma, enquanto outros (não menos sábios) afirmavam que qualquer experimentação poderia ser realizada tão somente no campo das idéias, ou seja, do pensamento puro… Tratava-se tão somente de duas lentes para se ver a Natureza, era preciso de ambas para se chegar a algum lugar, e ainda é preciso.
Portanto, ao invés de ficarmos nos degladiando (ciência vs. religião), era interessante, a meu ver, que ouvissemos novamente a Einstein: "A ciência sem a religião é paralítica – A religião sem a ciência é cega…"
Dito isso, posso passar a explicação do porque simpatizo com o espiritismo. Primeiro, é interessante detalhar sobre qual espiritismo estou falando, pois o que mais se vê no Brasil são seitas e doutrinas espiritualistas se dizendo "espíritas", talvez porque esteja na moda (?), provavelmente apenas porque vende bem. Segundo Kardec, o codificador da doutrina espírita, o espiritismo "é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal." – Onde onde se lê "ciência", deve-se lembrar que Kardec era antes um cientista cético, e tratou das manisfestações de inteligência nas pretensas comunicações dos espíritos (através dos médiuns franceses de sua época) pelo método científico de observação dos fenômenos, e posterior teorização da lógica dos fatos. Não se trata da ciência oficial, na medida que esta não comprovou experimentalmente (em processos replicáveis e falseáveis) a existência dos espíritos, mas se trata, sem dúvida, de uma teoria lógica acerca desses fenômenos, muitos dos quais até hoje a ciência oficial também não explica (não me incomodo que chamem a ciência espírita de pseudociência, portanto).
Onde se lê “mundo corporal” é preciso compreender que na época de Kardec muitas das descobertas da ciência moderna acerca da natureza da matéria (por exemplo, sua intangibilidade) ainda não haviam sido realizadas. Dessa forma, era comum na época tratar do mundo corporal como mundo “da matéria”, e do mundo espiritual como algo essencialmente “imaterial” (ainda que na pergunta #82 formulada por Kardec no Livro dos Espíritos, temos a resposta de que os espíritos são incorpóreos, mas não imateriais, pois que tudo é formado por matéria).
Hoje, a natureza do mundo corporal é compreendida pela Física Quântica como algo tão “virtual” (ou bizarro) quanto a mais psicodélica das teorias espiritualistas milenares. A diferença é que a Física Quântica trata de partículas detectadas em laboratório. Uma das teorias que defendo é a de que tudo é feito de matéria, inclusive o corpo espiritual (em espiritismo chama-se “perispírito”): um corpo fluídico nada mais seria do que um corpo formado por partículas ainda não detectadas pela ciência, do tipo que não interage com a luz (parte da chamada Matéria Escura).
Posso adiantar que não se trata de espíritos "de filmes ou histórias de assombração", de "demônios" ou de algo infantil como "gente que teve um karma ruim e reencarnou em um porco"… Trata-se do estudo lógico de um fenômeno, ou melhor, uma possibilidade: "a possibilidade de consciências extra-corpo se comunicarem com consciências [dentro do corpo, normais] de forma inteligente, ou seja, sem que a troca de informações possa ser originária de delírios ou alguma forma obscura de telepatia, pois as informações são muitas das vezes desconhecidas dos médiuns que as transmitem." – Um médium, no caso, não seria alguém "paranormal" ou dotado de um "dom divino", mas alguém como eu ou você, apenas com a capacidade de se comunicar com essas consciências extra-corpo mais desenvolvida, visto que segundo o espiritismo todos são médiuns, embora em graus variados (assim como todos podem compreender matemática, em graus variados).
Os espíritos nada mais são do que os seres inteligentes, ou com potencial de desenvolver a inteligência, por todo o Universo. Filhos da Natureza (embora se possa atribuir o advento dos espíritos a uma "aleatoriedade" tão grande quanto a que possibilitou a vida [de forma geral] no Universo, normalmente se atribui sua origem a um Criador), nascem como princípios inteligentes, e vivem em diversos planos vibratórios (pode-se entender como dimensões/branas, para quem conhece a Teoria M) ao longo da idade do Universo, seguindo toda a lógica evolucionista de Darwin-Wallace: apenas se propõe que o princípio que anima os seres orgânicos, da vida mineral a animal, evolui da mesma forma por etapas, ou reencarnações sucessivas, ora coletivas (na animalidade), ora individuais (no advento da consciência de si mesmo, em alguns animais mais evoluídos, e sem dúvida no homo sapiens). Assim como Wallace (um dos co-autores da própria teoria evolucionista) indiretamente defendia, o espiritismo nada mais faz do que explicar como a capacidade moral e cognitiva humana é transmitida adiante. Porque uns nascem criminosos e imorais, outros geniais e amorosos: é que estão em etapas diferentes de uma longa escada evolutiva, que se opera em absoluta independência dos genes, que nada mais fazem do que definir proteínas que determinam características físicas, como a cor dos olhos, ou a eficiência do sistema imunológico.
Importante frisar que os espíritos "falam apenas do que sabem", e nada mais. A grande parte das "desilusões" que se tem ao procurar a comunicação com espíritos provém da crença de que, em sua maioria, são seres de adiantado grau de conhecimento e moral, quando para os casos de contato mais comuns na mediunidade, ocorre exatamente o oposto (não são poucos os "avisos" nos livros de Kardec acerca de espíritos sombrios e zombeterios que só querem causar confusão). Portanto, uma vez admitida a possibilidade da mediunidade ser real, mesmo assim é preciso estar preparado (talvez com o kit de ceticismo de Sagan) para as inúmeras fraudes, ou comunicações atribuidas a espíritos zombeteiros, que iremos nos deparar pela frente.
Isso dá, acredito, um apanhado geral do que vem a ser o espiritismo real, codificado por Kardec (mas não de sua “autoria”). Para informações mais detalhadas, recomendo que consultem O Livro dos Espíritos.
À seguir, irei expor o caminho lógico que me levou a crer na reencarnação e na possibilidade da mediunidade.
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