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07 DE OUTUBRO NOS CINEMAS
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Um artigo do blog Textos para Reflexão (*)
Quando falamos em crianças que se lembram de vidas passadas, reencarnação, assuntos “espirituais”, há muitos cientistas de baixa curiosidade e céticos de negação a priori que preferem ignorar o assunto totalmente. Para estes, [...]
Um artigo do blog Textos para Reflexão (*)
Quando falamos em crianças que se lembram de vidas passadas, reencarnação, assuntos “espirituais”, há muitos cientistas de baixa curiosidade e céticos de negação a priori que preferem ignorar o assunto totalmente. Para estes, praticamente não existe diálogo possível… A aposta no monismo já foi efetuada há tempos, e eles estão apenas esperando o resultado da roleta.
Mas felizmente tivemos cientistas e céticos que, mesmo considerando o monismo com carinho, não se absteram de analisar a lógica por detrás de estudos científicos como os de Ian Stevensson, talvez por serem seres de alta curiosidade. Em “O mundo assombrado pelos demônios” – para muitos a “bíblia” do ceticismo – Carl Sagan menciona os estudos de Ian como o tipo de pesquisa heterodoxa que mereceria uma atenção mais cuidadosa da comunidade científica: “crianças pequenas as vezes reportam detalhes de uma vida anterior, detalhes que quando analisados revelam-se precisos, e um conjunto de informações que não poderiam saber de nenhuma outra forma que não a reencarnação.”
Sagan, no entanto, explica que ele mesmo não crê na reencarnação. Apenas crê que a pesquisa de Ian era válida, era científica, e que por isso mesmo merecia uma análise mais cuidadosa… Talvez a reencarnação fosse apenas uma resposta simplista para um fenômeno que escapava ainda ao entendimento da ciência; Talvez a reencarnação existisse de fato, mas operasse através de um mecanismo totalmente desconhecido, inclusive dos espiritualistas que creem que ele opera de forma X ou Y; Talvez a explicação remetesse ao inconsciente coletivo de Jung ou aos memes de Dawkins, embora em todo caso essas teorias sejam tão ou mais místicas quanto à da reencarnação.
Retornemos então ao embate entre monismo e dualismo: será que as vinte evidências de Ian Stevensson colocam o caso de Phineas Cage em xeque? Ora, é claro que em todos esses casos, o que temos são um misto de evidências subjetivas e objetivas, mas em número de casos teríamos uma proporção de vinte para um… Ainda que tenhamos diversos outros casos clínicos de pessoas que sofreram uma alteração moral devido a danos ao cérebro – e decerto teremos muitos casos interessantes nos relatos dos livros do psicanalista Oliver Sacks –, sempre teremos também inúmeros outros casos de crianças que lembram vidas passadas a estudar, afinal elas nunca param de nascer! Some-se a isso os estudos de experiências de quase morte em que há relatos de experiência consciente enquanto o cérebro estava sem nenhuma atividade detectável por instrumentos, e temos aí uma longa discussão pela frente… Muito embora o dualismo pareça estar sempre em clara vantagem, essas estatísticas não serão de muita relevância para a maioria das pessoas que já possuem uma opinião ou uma aposta formalizada: dualismo ou monismo.
Por isso eu achei que seria interessante trazer alguns pontos em comum entre estas duas teorias:
Primeiro, tanto o monismo quanto o dualismo são teorias. Sim, teorias conceituais. Não há prova científica nem experimentação em laboratório que tenha comprovado que o cérebro seja a única origem do processo de consciência. Ainda que tudo o que exista seja matéria, e que não haja nada de imaterial na mente, ainda assim segundo a própria ciência, através da teoria da matéria escura, apenas cerca de 4% da matéria e energia do universo interagem com a luz e foram detectadas por nossos instrumentos “físicos” – ou seja, a mente pode ser material, mas formada por parte desses 96% de matéria e energia que nos são ainda profundamente desconhecidos.
O que nos leva ao segundo ponto. Ora, muito embora o monismo seja essencialmente a crença e que mente e cérebro são a mesma coisa, e que não possam existir em separado, no fundo todos sabem que o que os monistas não podem aceitar é que haja algo de puramente imaterial em nossa essência mais íntima. Ou, em outras palavras, praticamente todo monista é um materialista… Mesmo o polêmico físico Amit Goswami, com suas teorias que defendem um monismo reencarnaciosta (ver, por exemplo, “A física da alma”), não deixa de ser ele mesmo um materialista espiritualista.
Mas, e se os monistas ouvissem de alguns dos espiritualistas (existem vários tipos, acreditem) que o espírito também é formado de matéria? Será que a partir de então o dualismo não será para eles uma possibilidade, no mínimo, plausível?
Vejamos a pergunta #82 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec: “É certo dizer que os espíritos são imateriais?” – Para surpresa de muitos, os próprios espíritos que ditavam as respostas para as jovens médiuns que auxiliavam o cientista francês trouxeram a seguinte resposta: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.”
Ou seja, embora seja uma resposta a favor do dualismo (o espírito é incorpóreo e portanto pode viver fora do corpo), é da mesma forma uma resposta a favor do materialismo. Se a tal matéria eterizada não soa bem aos ouvidos dos cientistas atuais, talvez soasse melhor se falassem em matéria escura, não detectada, fluida, etc. Ocorre que no século 19 o termo “matéria escura” ainda não havia sido cunhado…
O que isso tudo quer dizer? Acredito que, primordialmente, que devemos estudar todos os ramos de conhecimento humano, e todas as teorias – sejam científicas, espiritualistas ou filosóficas – antes de bradarmos convictos que “apenas a nossa aposta é a correta”… Até mesmo porque objetivamente, tanto o monismo quanto o dualismo, tanto o materialismo quanto o espiritualismo, não passam de apostas. Tudo o que temos de concreto é a companhia uns dos outros. Que não tornemos a vida de cada um mais sofrida com discussões inúteis onde cada um já traz suas opiniões e apostas formalizadas a priori, mas que aproveitemos essa divina diversidade de seres e ideias para que, ainda que em meio à dúvida, possamos construir uma sociedade onde os seres apenas dialogam sobre ideias, e não tem nenhuma boa razão para se exterminar por conta de opiniões contrárias e apostas no preto ou no vermelho. A roleta ainda está a girar!
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Crédito da foto: Renata Nunes
(*) O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Autoria do escritor Rafael Arrais
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