O diretor Wagner de Assis (de “A Cartomante”) fala ao Caderno 3 sobre seu novo projeto: “Nosso Lar”. O cineasta comenta os desafios de produzir o filme, as primeiras impressões do público e é taxativo em afirmar que, apesar do tema, não se trata de um filme doutrinário
Como se deu o trabalho de adaptação, o tratamento do roteiro?
Para começar a escrever o roteiro, conversei com mais de 100 leitores. Anotei suas sugestões e conselhos. À produção, foram se juntando pessoas de várias religiões, o que foi muito interessante. E o que era um barquinho virou um transatlântico…
Mas custou quanto mesmo esse transatlântico?
Pouco mais de R$ 20 milhões, só a produção do filme. Não inclui essa correria da divulgação que estamos fazendo.
Este é o tipo de filme que depende dos efeitos especiais. Você o filmou em cima de um “story board”?
Sim. Fiz mais de 200 páginas de “story board” convencional e mais de meia hora de “story board” digital. Era um processo muito grande de visualização. O filme dependia disso, da exposição dos lugares onde se passava, para que as pessoas compreendessem o que era e onde se situava essa cidade. Porque, na verdade, o filme não é só a história da cidade, mas a de um homem, sobre a condição humana, sobre a transformação de um homem. Só que essa história apresenta um paradigma maravilhoso, que é a vida depois da vida. Como um homem se depara com esse paradigma. E quais os resultados disso, que são você descobrir quem é de verdade, enfrentar a si mesmo. Eu digo que o maior vilão de André Luiz é ele mesmo. Isso tudo num cenário diferente, num cenário espiritual, um lugar para onde se vai após a morte.
Uma das virtudes do filme é a diversidade de seus elementos dramáticos.
É. As escolhas dramáticas são muito difíceis, não são fáceis. Escolher como, quem, o que, por que… Por isso que foi bacana ter conversado com os leitores, porque livro é livro, filme é filme, são coisas diferentes.
Nas pré-estreias, quais têm sido as reações do público?
Estou muito feliz com as reações. 99% das pessoas se emocionam, e, dentro delas, algumas muito abertas. Por exemplo, quem leu o livro desaba mesmo, se identifica, se empolga, gosta das licenças que foram feitas, como Emanuel, presente na história. Outra parte fica muito intrigada, questionadora. Tem outra que diz ter tomado um soco no estômago, que está saindo impactado com tudo aquilo. E outra parte, mínima, um por cento, reage virulentamente contra o filme. Assim, comecei a entender a força dessa história junto às pessoas. Porque elas não veem o filme como um filme, como ele é, mas como um simbolismo da realidade, porque o filme traz uma carga espiritual, que é a presença de Chico Xavier e seu trabalho mediúnico. Eu sabia que isso existia, mas não como chegaria ao público. É sempre uma coisa nova que acontece com o filme na tela, né? E é incrível ver a raiva que certas pessoas têm do filme enquanto tema.
E a reação da crítica?
Não vou me assustar se o filme tiver algumas críticas muito pesadas em relação a achar que aquilo ali é a representação de uma realidade. Você não gosta de uma realidade, não está nem aí, fica com raiva daquilo. Não é incomum e isso tem acontecido. Sei que a história é forte, mas estamos apenas contando uma história, não é um documentário, não tenho a intenção de doutrinar ninguém.
Então, como adaptar “Nosso Lar” e não fazer um filme doutrinário?
Era colocar a filosofia e a ética espirituais contidas na história a favor do personagem. A doutrina espírita fala da lei do trabalho – como em outras religiões. O personagem tinha que entender que trabalho, no mundo espiritual, é igual ao trabalho no mundo material. Porém, as consequências são diferentes: você não acumula, mas você ganha méritos, crescimento interior, você ganha bônus, bônus-horas. Isso é dito para André Luiz, o personagem central. Porque é aí que ele entende que, se não começar a trabalhar, com vontade, com coração aberto, o trabalho por si não vai render-lhe nada.
O filme transmite emoção: como é trabalhar o sentimento, num filme desses, sem cair no pieguismo?
Difícil, viu? Muito difícil. E espero que tenhamos acertado em não ser piegas. Ninguém, até agora, o rotulou de piegas. Pode ser que saia, mas, pelo que sei, até agora não. O filme está num limite de emoção que foi muito bem construído, dentro do conflito do personagem: saudade e transformação, saudade e reforma íntima. Então quando André está ali, olhando a família, olhando que ele não mais vive naquele mundo, essa saudade reverbera tanta coisa, né? Tipo aprender a deixar para trás, ou ainda aprender a aceitar a verdade da vida. Leia a entrevista na íntegra em blogs.diariodonordeste.
Fonte: Caderno 3.