Educar os Vivos
O Trevo, Novembro de 1987.
Há muita gente preocupada com a modificação dos espíritos chamados obsessores, isto é, espíritos ignorantes ainda voltados para a prática do mal. Por causa disso acaba dando um valor exagerado às chamadas “sessões de desobsessão”, fechadas, em que se procura evangelizar, pela doutrinação oral, o espírito ainda endurecido e distanciado do amor.
Contudo, não nos devemos esquecer que os espíritos obsessores alimentam-se de nossa atmosfera psíquica. Os homens, como espíritos encarnados, é que lhes fornecem o caldo de cultura. Logo, é preciso dar-se atenção especial ao trabalho de esclarecimento e evangelização dos encarnados, dos homens que buscam o Centro Espírita.
Não é o simples fato de colocarmos o nome do encarnado num grupo de desobsessão que vai transformá-lo num indivíduo sadio espiritualmente. Se de fato existir em torno dele um espírito ignorante, este poderá ser esclarecido, mas, se o encarnado for alvo de manifestãção da ignorância alheia é porque, em si mesmo, possui os germes do atraso espiritual que atraiu a atenção do ignorante. Assim, o trabalho mais importante se nos afigura atuar sobre o encarnado, fornecendo-lhe os instrumentos necessários para a elevação espiritual e consequente mudança de faixa vibratória.
Mudando de faixa vibratória, isto é, modificando seu procedimento, reformando-se, o indivíduo será menos acessível ao assédio dos espíritos desencarnados ignorantes. E será um indivíduo realmente curado, pois que seu íntimo será curado e não mais servirá de alimento para quem gosta de coisas apodrecidas. A podridão de nossos vícios e defeitos.
Tomemos um exemplo. O alcoolismo. Suponhamos que o indivíduo seja alcoólatra pressionado por uma falange de obsessores. Esses obsessores, levados para um trabalho de assistência espiritual, concordam em afastar-se. Mas o indivíduo continua viciado, pois nenhum espírito – mesmo o mais endurecido perseguidor – consegue interferir no nosso livre-arbítrio: no fundo, o alcoólatra tinha propensão para o vício. Essa propensão, como uma fresta, deu entrada à atuação dos obsessores. Estes, senhores da praça, declaram a guerra. E vão, aos poucos, levando o indivíduo a beber cada vez mais.
Bem, voltemos ao tratamento espiritual. Afastados os obsessores, se o viciado – agora com a trégua permitida pelo afastamento dos perseguidores – não se conscientizar de que deve realmente se afastar da bebida, logo estará novamente caído. Se não pela ação dos mesmos inimigos, mas pela ação de outros viciados desencarnados. Isto é, o viciado continuou com a janela aberta, continuou fornecendo a mesa para o banquete. E pela qualidade da mesa pode-se avaliar o tipo de comensal que iremos receber. A mesa do banquete de um viciado não pode atrair espíritos sóbrios e equilibrados.
Assim, a tarefa fundamental do Espiritismo é a da educação moral do homem, da redenção do homem. Seja ele encarnado ou desencarnado. Não é questão de discutirmos se é “espiritismo de vivos” ou “espiritismo de mortos”. É espiritismo, simplesmente. Doutrina de redenção de espíritos. Quer estejam encarnados, quer esteja errantes no plano espiritual.
Logo, Centro Espírita deve ter uma atuação coordenada. Preocupar-se com a educação. Educação moral, que leva ao fortalecimento do indivíduo. E se preocuparmos tão somente com os encarnados, por tabela também estaremos educando os espíritos desencarnados, pois estes, alimentando-se na atmosfera dos encarnados, começarão a receber um novo tipo de alimento e serão forçados a se modificar também ou a afastar-se.
Valentim Lorenzetti
FONTE: O Trevo.
O texto acima faz parte do Índice Geral de Assuntos do jornal O Trevo, da Aliança Espírita Evangélica. Ter acesso ao mesmo só foi possível devido a um grande trabalho de digitalização. O índice compreende o período de 1973 a 1999, referente aos Trevos números 1 a 303. O período de 1999 a 2008, será adicionado posteriormente.
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